Até 28 de março de 2023, a covid-19 matou 700.000 pessoas no Brasil. Esta linha do tempo reúne, com fonte em cada linha, o que o governo de Jair Bolsonaro fez e o que deixou de fazer enquanto isso — e os depoimentos de quem ficou.
Entre a primeira oferta da Pfizer, em agosto de 2020, e o contrato, em março de 2021, passaram-se216 dias. Nesse tempo, 181.344 pessoas morreram.
de 14.08.2020 a 18.03.2021 · mortes pela série diária das secretarias estaduais de saúde, compilada por W. Cota (covid19br, CC BY-SA 4.0)
a curva
O que se dizia enquanto as pessoas morriam.
Mortes diárias por covid-19, média de 7 dias. Os marcos são declarações e decisões do governo federal. Passe o cursor sobre a curva para ver cada dia, ou clique num marco para abrir o evento.
A linha tracejada é a parte da população com a vacinação completa. A vacinação começou em janeiro de 2021 e avançou devagar: no pico de mortes, em abril, só 3,3% dos brasileiros tinham a vacinação completa. As mortes só caem de vez quando essa linha sobe.
216 dias da primeira oferta da Pfizer ao contrato
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mortes por dia (média de 7 dias)população com vacinação completa (escala à direita)da primeira oferta da Pfizer ao contrato (14.08.2020 a 18.03.2021)mortes: W. Cota, covid19br; vacinação: Our World in Data — ambas das secretarias estaduais de saúde
4.249mortes registradas num único dia, 8 de abril de 2021Ministério da Saúde
3.111mortes por dia em média na pior semana, até 11 de abril de 2021série das secretarias estaduais (W. Cota, covid19br)
54.440mortes entre a recusa da CoronaVac (21.10.2020) e a primeira vacina aplicada no país (17.01.2021)série das secretarias estaduais (W. Cota, covid19br)
49 eventos · cada um com a sua fonte
A linha do tempo.
Ao lado de cada evento, as mortes acumuladas no país até aquele dia: nos marcos, o número oficial que o evento cita; nos demais, a série das secretarias estaduais (W. Cota, covid19br).
O Ministério da Saúde confirma o primeiro caso de covid-19 no país. O paciente, um homem de 61 anos, estivera na Lombardia entre 9 e 21 de fevereiro, teve os primeiros sintomas na volta, foi atendido no Hospital Israelita Albert Einstein em 24 de fevereiro e notificado às autoridades sanitárias no dia 25. O Brasil tinha, nesse dia, cerca de um mês de vantagem sobre a Europa para se preparar.
26 de fevereiro de 20203 vídeos · 2 imagens · 8 fontes e matérias
Ao longo de quase um ano, o presidente da República fez uma sequência contínua de declarações públicas minimizando a doença, atacando o distanciamento social e desacreditando o uso de máscaras. A CPI da Pandemia compilou essas falas com data e fonte e concluiu que o chefe do Executivo foi “o maior canal de disseminação de desinformações” sobre as medidas não farmacológicas.
“O governo federal não seguiu essa estratégia e teve no Presidente da República o maior canal de disseminação de desinformações e de conflitos a respeito das medidas não farmacológicas.”
março de 2020 a fevereiro de 20213 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
Em 17 de março de 2020 o país é informado de sua primeira morte por covid-19, um homem de 62 anos que morrera no dia 16 em São Paulo. Três meses depois, o Ministério da Saúde corrige a série histórica: a primeira morte fora a de uma mulher de 57 anos, em 12 de março. A revisão mostra que a contagem oficial andava atrás dos fatos desde o começo.
12 de março de 20203 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
A CPI da Pandemia concluiu que a desinformação sobre a covid-19 não foi espontânea, mas produzida por uma organização de cinco núcleos articulados. Um deles, o núcleo político, era formado por parlamentares — e o relatório final lista, com data, o que cada um publicou contra as máscaras, o distanciamento, as vacinas e a favor do chamado tratamento precoce.
“Em seguida, está o núcleo que oferece suporte político às decisões da organização. Ele é formado essencialmente por parlamentares, políticos, autoridades públicas e religiosas. […] Eles incentivaram as pessoas ao descumprimento das normas sanitárias impostas para conter a pandemia e adotaram condutas de incitação ao crime.”
março de 2020 a junho de 20212 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
desinformaçãomáscaras e distanciamentovacinascloroquina e kit covid
Albert Bourla, presidente mundial da Pfizer, escreve ao presidente da República apresentando os produtos da empresa. É o primeiro de uma sequência de contatos que atravessaria todo o ano de 2020 — pedidos de reunião com o ministro da Saúde e com o vice-presidente em maio, acordo de confidencialidade em julho, propostas vinculantes em agosto. O contrato seria assinado um ano depois.
17 de março de 20203 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
Em pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, o presidente da República minimiza a doença, critica o fechamento de escolas e de comércio e pede o retorno à normalidade. O discurso define a posição do governo federal pelos dois anos seguintes e contraria a orientação do próprio Ministério da Saúde.
“No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.”
24 de março de 20203 vídeos · 3 imagens · 9 fontes e matérias
O Supremo Tribunal Federal proíbe, em liminar, a produção e a veiculação de qualquer campanha publicitária com o mote “O Brasil não pode parar”, atribuída à Secretaria de Comunicação da Presidência. Para a CPI da Pandemia, a peça é prova da estratégia que o governo federal perseguiu: atingir a imunidade de rebanho pela contaminação, em vez de contê-la.
“Pelas provas colhidas, foi possível concluir que o Presidente da República assessorado pelo gabinete paralelo defendia o atingimento da imunidade de rebanho por meio da contaminação coletiva pelo vírus. A estratégia era favorecer a propagação do novo coronavírus, contrapondo-se à adoção de medidas não farmacológicas.”
31 de março de 20203 vídeos · 2 imagens · 8 fontes e matérias
máscaras e distanciamentodesinformaçãoinstitucional
Um decreto de 16 de abril de 2020, publicado em edição extra do Diário Oficial no mesmo dia, exonera Luiz Henrique Mandetta do cargo de ministro de Estado da Saúde. A demissão vem depois de semanas de atrito público com o presidente a respeito de distanciamento social e cloroquina. Era o ministro que conduzia a resposta à epidemia desde o primeiro caso.
“O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, caput, inciso I, da Constituição, resolve: EXONERAR LUIZ HENRIQUE MANDETTA do cargo de Ministro de Estado da Saúde.”
16 de abril de 20203 vídeos · 4 imagens · 7 fontes e matérias
Perguntado pela Folha de S.Paulo sobre o número de mortos por covid-19, o presidente Jair Bolsonaro responde que não é coveiro. No mesmo dia, o Ministério da Saúde corrige o próprio boletim — as mortes das últimas 24 horas eram 113, não as 383 divulgadas antes.
Com 5.017 mortes, o Brasil ultrapassa a China, onde a pandemia começou, em número de óbitos divulgados oficialmente. No mesmo dia, o país registra 474 mortes em 24 horas, recorde até então.
No dia em que o Brasil ultrapassa a China em número de mortes — 5.017 contra 4.643 —, o presidente responde a jornalistas com “e daí?”. Oito dias antes, perguntado sobre o número de mortos, dissera não ser coveiro.
“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.”
28 de abril de 20203 vídeos · 2 imagens · 10 fontes e matérias
Setenta e quatro dias depois do primeiro caso confirmado, o Brasil passa de 10 mil mortes. Seis dias depois, o segundo ministro da Saúde da pandemia, Nelson Teich, pediria demissão, e o Ministério passaria ao comando interino de um general da ativa, Eduardo Pazuello.
9 de maio de 20203 vídeos · 3 imagens · 8 fontes e matérias
O segundo ministro da Saúde da pandemia anuncia a saída menos de um mês depois de tomar posse; o decreto que o exonera “a pedido” sai no dia seguinte, em edição extra do Diário Oficial. À CPI da Pandemia, Teich diria depois que saiu por divergir do governo quanto à cloroquina e por não ter autonomia sobre o uso do medicamento. O Ministério passa ao comando interino de um general da ativa.
“EXONERAR, a pedido, NELSON LUIZ SPERLE TEICH do cargo de Ministro de Estado da Saúde.”
15 de maio de 20203 vídeos · 4 imagens · 8 fontes e matérias
Cinco dias depois de assumir interinamente, o general Eduardo Pazuello publica a Nota Informativa nº 9/2020, que estende a prescrição de cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina a casos leves de covid-19. O próprio documento admite, no texto, que não há evidência científica robusta para indicar terapia farmacológica específica contra a doença.
“Até o momento, não existem evidências científicas robustas que possibilitem a indicação de terapia farmacológica específica para a covid-19.”
20 de maio de 20203 vídeos · 2 imagens · 7 fontes e matérias
Com 27.878 mortes, o país ultrapassa a Espanha e assume a quinta posição mundial em número absoluto de óbitos. Em duas semanas passaria da quinta para a segunda.
29 de maio de 20201 vídeo · 2 imagens · 7 fontes e matérias
Com 34.021 mortes, no terceiro recorde diário seguido, o Brasil ultrapassa a Itália e se torna o terceiro país do mundo com mais mortes por covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Até 4 de junho o governo federal divulgava casos e mortes do dia e os totais acumulados. No dia 5, sem justificativa, o painel sai do ar; quando volta, já não traz o acumulado, e os boletins passam a ser divulgados à noite. Três dias depois, o Supremo Tribunal Federal manda restabelecer a divulgação integral.
5 a 8 de junho de 20203 vídeos · 2 imagens · 7 fontes e matérias
Com 41.828 mortes contra 41.566 do Reino Unido, o Brasil se torna o segundo país do mundo em número absoluto de mortes por covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos. Subiu da quinta à segunda posição em duas semanas, e não sairia mais dela.
12 de junho de 20203 vídeos · 2 imagens · 8 fontes e matérias
O país passa de 50 mil mortes quatro meses depois do primeiro caso. Nesse mesmo mês, o governo federal havia retirado do ar a série histórica dos dados da pandemia, e veículos de imprensa formaram um consórcio para apurar os números com as secretarias estaduais.
21 de junho de 20201 vídeo · 3 imagens · 8 fontes e matérias
A Lei 14.019 torna obrigatório o uso de máscara, mas é sancionada com vetos que retiram a obrigatoriedade em estabelecimentos comerciais e industriais, templos religiosos e escolas, derrubam o fornecimento gratuito de máscaras a populações vulneráveis e cancelam a obrigação de o Executivo veicular campanhas sobre o uso correto do equipamento. A razão apresentada para o primeiro veto foi a inviolabilidade de domicílio.
“A propositura legislativa, ao estabelecer que o uso de máscaras será obrigatório em demais locais fechados em que haja reunião de pessoas, incorre em possível violação de domicílio por abarcar conceito abrangente de locais não abertos ao público.”
2 de julho de 20203 vídeos · 2 imagens · 7 fontes e matérias
A Lei 14.021, de proteção social a povos indígenas na pandemia, é sancionada com dezesseis dispositivos vetados, entre eles o acesso universal a água potável, a distribuição gratuita de material de higiene, a oferta emergencial de leitos de UTI e a compra de ventiladores. No dia seguinte, o Supremo determinou à União, na ADPF 709, o que o Executivo não fizera por iniciativa própria.
julho a agosto de 20202 vídeos · 3 imagens · 8 fontes e matérias
Em 14, 18 e 26 de agosto de 2020 a Pfizer apresenta três propostas vinculantes de venda de vacina ao governo brasileiro, cada uma em duas opções — 30 ou 70 milhões de doses —, a US$ 10 a dose, com entrega começando ainda em 2020. A última dava prazo de quinze dias e não foi aceita nem recusada. O contrato seria assinado sete meses depois, com menos doses para o primeiro semestre de 2021 do que a oferta de agosto previa.
“Como era vinculante e estávamos neste processo com todos os governos, teria uma validade de 15 dias. Passados esses 15 dias, o Governo do Brasil não rejeitou, mas tampouco aceitou a oferta.”
agosto de 2020 a março de 20213 vídeos · 2 imagens · 9 fontes e matérias
Uma filha conta a morte da mãe por covid-19 — a consulta que a mandou para casa, o hospital particular que ela não pôde pagar, a internação num hospital público, a carta de despedida e o enterro num saco, com a família em chamada de vídeo. Ela tinha 20 anos e marca a data de 13 de setembro de 2020.
Por ofício ao Ministério da Saúde, o Instituto Butantan oferece 100 milhões de doses da CoronaVac — 45 milhões até dezembro de 2020, 15 milhões até fevereiro de 2021 e 40 milhões até maio. Duas semanas depois, o presidente desautorizaria em público a compra. O contrato só seria assinado em 7 de janeiro de 2021, e as entregas começariam no dia 15.
7 de outubro de 20203 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
Em 20 de outubro de 2020, depois de reunião com governadores, o ministro da Saúde assina protocolo de intenções para adquirir 46 milhões de doses da CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em São Paulo. No dia seguinte o presidente o desautoriza em público e declara que a compra não será feita. A vacina estava em ensaio clínico de fase 3 com voluntários brasileiros.
21 de outubro de 20203 vídeos · 2 imagens · 8 fontes e matérias
Suzanny Victória tinha 17 anos quando perdeu a mãe, em 24 de outubro de 2020, e a tia, no dia seguinte — as duas enfermeiras da linha de frente; a mãe era vacinadora. Conta que a mãe foi enterrada num saco preto, sem velório e sem despedida, e que depois teve de se virar para estudar e trabalhar.
O líder do governo na Câmara dos Deputados organiza, na própria Casa, um evento para defender a imunidade de rebanho por contaminação, com a presença de médicos ligados ao chamado tratamento precoce. No evento, deputados e convidados defendem a volta imediata às aulas presenciais.
28 de outubro de 20203 vídeos · 2 imagens · 6 fontes e matérias
Um dia depois de a Anvisa suspender os testes da CoronaVac por um evento adverso grave — depois esclarecido como um suicídio sem relação com a vacina —, o presidente publica em rede social que o imunizante poderia causar “morte, invalidez, anomalia” e trata a suspensão como vitória política sobre o governador de São Paulo.
10 de novembro de 20203 vídeos · 2 imagens · 10 fontes e matérias
Em evento público em Porto Seguro, o presidente afirma que o contrato da Pfizer isentaria a empresa de responsabilidade por efeitos colaterais e que, se alguém virasse jacaré depois de tomar a vacina, o problema seria dele. Disse também que não se vacinaria. O país começaria a vacinar um mês depois, com doses do Butantan.
“Lá na Pfizer, tá bem claro lá no contrato: nós não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral. Se você virar o jacaré, é problema de você, pô.”
17 de dezembro de 20202 vídeos · 2 imagens · 10 fontes e matérias
Na noite de 7 de janeiro de 2021 o secretário de Saúde do Amazonas telefona ao ministro da Saúde para avisar do problema de abastecimento de oxigênio; a comunicação formal da fornecedora chega ao Ministério no dia 8. O socorro federal chega em 13, e em 14 de janeiro pacientes morrem asfixiados em leitos de Manaus. As duas datas constam de resposta oficial do próprio Ministério da Saúde ao Congresso.
“— O senhor concorda que, se não faltasse oxigênio, vidas seriam salvas? — Concordo em gênero, número e grau.”
7 a 15 de janeiro de 20213 vídeos · 3 imagens · 11 fontes e matérias
O país passa de 200 mil mortes no mesmo dia em que o secretário de Saúde do Amazonas telefona ao ministro para avisar que o oxigênio vai faltar em Manaus, e dez dias antes da primeira dose aplicada no Brasil.
7 de janeiro de 20213 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
Na mesma semana em que Manaus ficou sem oxigênio, o Ministério da Saúde lançou na cidade o TrateCov, um aplicativo que, a partir de sintomas informados, prescrevia cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina — inclusive para crianças. A ferramenta foi montada em cinco dias e saiu do ar dez dias depois, a pedido do Conselho Federal de Medicina.
“— Tudo aquilo que poderiam ter feito com o povo do Amazonas e de Manaus para testar, para usar de cobaia, para ter experiência foi feito lá. — Presidente, o senhor me desculpe, mas não é cobaia. É uma tentativa de melhorar o atendimento ao público.”
11 a 21 de janeiro de 20213 vídeos · 2 imagens · 8 fontes e matérias
Reunida em sessão extraordinária num domingo, a diretoria colegiada da Anvisa aprova por unanimidade a autorização temporária de uso emergencial da CoronaVac, do Butantan, e da Covishield, produzida pelo Serum Institute of India e distribuída pela Fiocruz. Minutos depois, a enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, é vacinada em São Paulo. O país começa a vacinar quase um mês depois do Reino Unido e de vizinhos sul-americanos.
17 de janeiro de 20213 vídeos · 3 imagens · 8 fontes e matérias
Segundo a Organização Mundial da Saúde, 60,2 mil pessoas morreram de covid-19 no mundo entre 15 e 21 de março de 2021; 15,6 mil delas no Brasil. O país teve, sozinho, um quarto das mortes da semana.
O Ministério da Saúde assina com a Pfizer o Contrato nº 52/2021, de 100.001.070 doses, com entregas até o fim do terceiro trimestre de 2021. Entre a primeira oferta da fabricante e a assinatura passaram-se sete meses e quatro dias — o intervalo em que o país entrou na segunda onda.
18 de março de 20213 vídeos · 2 imagens · 8 fontes e matérias
Na live semanal, o presidente Jair Bolsonaro imita uma pessoa com falta de ar, com sons guturais, ao defender o chamado tratamento precoce e atacar o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. Seis dias depois, o país passaria de 300 mil mortes.
Setenta e seis dias depois das 200 mil, o Brasil chega a 300 mil mortes. O contrato com a Pfizer fora assinado seis dias antes, sete meses depois da primeira oferta. O pior mês da pandemia ainda estava por vir.
24 de março de 20213 vídeos · 3 imagens · 6 fontes e matérias
O Ministério da Saúde registra 4.249 mortes por covid-19 em 24 horas, o maior número diário da pandemia no país, e o total acumulado chega a 345.025. Dois dias antes o balanço já passara de 4 mil. Abril de 2021 seria o mês mais letal da pandemia no Brasil, com a vacinação ainda no começo.
8 de abril de 20212 vídeos · 2 imagens · 7 fontes e matérias
O Senado instala a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia dezenove dias depois de o Supremo Tribunal Federal determinar sua abertura. Omar Aziz é eleito presidente, Randolfe Rodrigues vice e Renan Calheiros confirmado relator. Em seis meses, a comissão produz o acervo documental que sustenta boa parte desta linha do tempo.
27 de abril de 20213 vídeos · 4 imagens · 7 fontes e matérias
Trinta e seis dias depois das 300 mil, o Brasil passa de 400 mil mortos, com 401.186 registrados. Abril de 2021 foi o mês mais letal da pandemia no país, e a vacinação cobria pouco mais de 2% da população com esquema completo.
29 de abril de 20213 vídeos · 3 imagens · 6 fontes e matérias
No Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro ameaça editar um decreto para impedir estados e municípios de adotar medidas restritivas — “não será contestado por nenhum tribunal” — e, no mesmo discurso, insinua que a pandemia poderia ser uma nova guerra química e bacteriológica.
“E, se eu baixar um decreto, vai ser cumprido, não será contestado por nenhum tribunal.”
Áudio gravado pelo advogado José Roberto Feltrin, assessor parlamentar, já com covid, culpando o presidente por não ter comprado vacina e o deputado José Medeiros, de cujo gabinete era assessor. Morreu em 18 de maio de 2021, aos 55 anos. O deputado atribuiu a divulgação do áudio à vingança de um ex-assessor.
Em pronunciamento em rede nacional, o presidente Jair Bolsonaro promete vacina para todos os brasileiros que quiserem até o fim do ano e repete que o governo “não obrigou ninguém a ficar em casa”. A fala é acompanhada de panelaços em capitais. Dezessete dias depois, o país passaria de 500 mil mortes.
“Neste ano, todos os brasileiros que assim o desejarem serão vacinados.”
O Brasil passa de meio milhão de mortes por covid-19. No mesmo dia, manifestações contra o governo federal ocupam ruas de mais de trezentas cidades. A CPI da Pandemia estava em curso havia dois meses.
19 de junho de 20213 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
Luis Ricardo Miranda, chefe de importação do Ministério da Saúde, depõe à CPI da Pandemia e relata pressão atípica para liberar o pagamento da vacina indiana Covaxin. A fatura apresentada vinha em nome de uma empresa que não constava do contrato, exigia pagamento 100% antecipado e cobria apenas 300 mil doses. Quatro dias depois, o contrato é suspenso.
“Ao ser analisado por um técnico da divisão de importação, foi verificado que Madison Biotech não é uma correspondente do contrato que constava a Precisa Medicamentos e a Bharat Biotech. Outra observação que foi analisada foi que o termo de pagamento era 100% antecipado.”
25 de junho de 20213 vídeos · 3 imagens · 8 fontes e matérias
Em pronunciamento no plenário do Senado, o senador Flávio Bolsonaro chama os trabalhos da CPI da Pandemia de “show de horrores”, acusa o relator de usar a comissão contra si e questiona a utilidade da investigação. O discurso é de duas semanas depois da denúncia da Covaxin e de três meses antes do relatório final.
“Quantas vacinas no braço do povo a CPI botou? O que a CPI tem feito para ajudar o Brasil a sair dessa crise? Quantos empregos a CPI salvou? Está sendo uma vergonha para a população.”
7 de julho de 20213 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
O Brasil passa de 600 mil mortes confirmadas por covid-19, a segunda maior cifra absoluta do mundo. O Ministério da Saúde contabiliza 600.425 óbitos; o consórcio de veículos de imprensa, 600.077 no mesmo dia. Dezenove meses separam essa data da primeira morte registrada no país.
8 de outubro de 20213 vídeos · 3 imagens · 7 fontes e matérias
Em transmissão ao vivo, o presidente afirma que relatórios oficiais do Reino Unido sugeririam que pessoas totalmente vacinadas estariam “desenvolvendo a síndrome de imunodeficiência adquirida muito mais rápido que o previsto”. A informação vinha de um site conspiracionista. Facebook, Instagram e YouTube removeram o vídeo, e o Supremo abriu inquérito a pedido da CPI da Pandemia.
“Relatórios oficiais do governo do Reino Unido sugerem que os totalmente vacinados… Quem são os totalmente vacinados? 15 dias após a segunda dose, totalmente vacinados, estão desenvolvendo a síndrome de imunodeficiência adquirida muito mais rápido que o previsto.”
outubro a dezembro de 20213 vídeos · 2 imagens · 12 fontes e matérias
A CPI da Pandemia aprova seu relatório final por 7 votos a 4 e pede o indiciamento de 78 pessoas e duas empresas, entre elas o então presidente da República, a quem imputa nove crimes — do Código Penal, da Lei de Impeachment e do Estatuto de Roma. O documento tem 1.287 páginas e conclui que houve, na condução federal, opção deliberada por não conter a doença.
26 de outubro de 20213 vídeos · 3 imagens · 8 fontes e matérias
Em conversa com apoiadores, o presidente Jair Bolsonaro conta que, na viagem à Itália, um homem lhe disse que a história o condenaria e que ele tinha matado seu avô — e minimiza a morte: o avô teria uns 80 anos, “grupo de risco”.
Três anos depois do primeiro caso, o Ministério da Saúde registra 700 mil mortes por covid-19 no Brasil — o segundo maior número absoluto do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. É o último marco desta linha do tempo, e o que fecha a conta.
28 de março de 20233 vídeos · 3 imagens · 6 fontes e matérias
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o custo
Quantas mortes eram evitáveis.
Três estimativas foram apresentadas à CPI da Pandemia e constam do seu relatório final. Têm métodos e recortes diferentes, e por isso estão aqui as três, com a autoria de cada uma — da mais estreita, que mede o efeito de uma única decisão, à mais ampla, que compara o Brasil com o resto do mundo.
12.663pessoas com 60 anos ou mais: mortes em março, abril e maio de 2021 que não teriam ocorrido se o Ministério da Saúde tivesse contratado, em agosto de 2020, as 70 milhões de doses oferecidas pela Pfizer.modelo matemático de pesquisadores da USP, da FGV, do Butantan e da London School, citado no relatório final da CPI da Pandemia
120.000mortes: parcela evitável do excesso de 305 mil mortes registrado no país, por testagem em massa, rastreamento de contatos, isolamento, máscaras e restrição de mobilidade.Werneck et al., “Mortes evitáveis por covid-19 no Brasil”, Idec e Oxfam, junho de 2021, apresentado à CPI em 24 de junho de 2021
400.000mortes: quatro de cada cinco mortes no país teriam sido evitadas se o Brasil estivesse na média mundial de mortalidade.Pedro Hallal, epidemiologista e ex-reitor da UFPel, em depoimento à CPI da Pandemia em 24 de junho de 2021
O relatório final da CPI da Pandemia, aprovado no Senado em 26 de outubro de 2021, pediu o indiciamento do então presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, por 9 crimes: 1) epidemia com resultado morte, 2) infração de medida sanitária preventiva, 3) charlatanismo, 4) incitação ao crime, 5) falsificação de documento particular, 6) emprego irregular de verbas públicas, 7) prevaricação, 8) crimes contra a humanidade e 9) crimes de responsabilidade. Ele não foi preso por nenhum deles porque indiciamento pedido por comissão parlamentar não prende ninguém: a denúncia cabia ao procurador-geral da República, Augusto Aras — indicado ao cargo por Bolsonaro fora da lista tríplice da categoria e por ele reconduzido em 2021 —, que não a apresentou.
crimes imputados a Bolsonaro
9
pessoas com indiciamento pedido
78
denúncias apresentadas pela PGR
0
Por que a responsabilidade é do governo federal
Porque as decisões que produziram o atraso eram federais, e só podiam ser tomadas no nível federal. A compra centralizada de vacinas é atribuição da União; estado e município não podem assinar contrato com fabricante estrangeiro no lugar dela. Cada elo desta cadeia está documentado nesta linha do tempo, com data e fonte.