Lívia Brito
publicado por @livbrto em 11 de outubro de 2026
Uma filha conta a morte da mãe por covid-19 — a consulta que a mandou para casa, o hospital particular que ela não pôde pagar, a internação num hospital público, a carta de despedida e o enterro num saco, com a família em chamada de vídeo. Ela tinha 20 anos e marca a data de 13 de setembro de 2020.
transcrição
[Transcrição automática do vídeo, conferida entre dois modelos de reconhecimento de fala; ainda a revisar contra a gravação.]
Esses dias apareceu aqui no meu feed o vídeo de uma menina falando que a mãe dela foi enterrada em um saco igual a esse. E a minha mãe também foi enterrada em um saco igual a esse.
Quando minha mãe pegou o covid, ela foi no médico, o médico passou remédio pra ela e mandou ela pra casa. Ele não fez nenhum raio X. Talvez isso tivesse mudado alguma coisa. Talvez não.
No dia que ela foi internada, eu escutei alguns sussurros. Eu tava na sala, aí eu fui no quarto ver o que tava acontecendo. E ela tava orando muito, orando muito por mim, pelas pessoas que ela conhece. Só que a respiração dela já tava meio fraca, ela tava falando coisas um pouco sem sentido.
E aí eu liguei pra minha prima pra me orientar ao que eu devia fazer, porque ela era da área da saúde, e ela veio me ajudar. Enquanto ela não chegava, eu parei assim, na cozinha, ajoelhei e eu rezei muito. Eu acho que eu nunca rezei tanto na minha vida, e eu não sou uma pessoa muito religiosa — eu acredito em Deus.
E ela chegou, com a ajuda de um vizinho, a gente pegou ela e levou pra um hospital particular. Ela teve o primeiro tratamento, o oxigênio e tal, só que eles me passaram um valor muito inacessível pra mim na época. Então a gente pegou minha mãe e levou pra um hospital público mais próximo.
Quando eu cheguei nesse hospital, a minha mãe já era pra internar mesmo. Eu fui resolver a papelada da internação dela, e a mulher me deu uma folha em branco pra escrever uma carta pra minha mãe. Eu nem sei se a minha mãe chegou a ler essa carta que eu escrevi. Eu só sei que eu me despedi dela, disse que amava ela, que queria que ela saísse dessa o mais rápido possível pra voltar pra nossa casa.
Ela não voltou.
Quando eu enterrei minha mãe, eu tinha 20 anos. Eu nunca tinha pisado num cemitério na minha vida, e a primeira vez que eu fui num enterro foi justamente o da minha mãe. Ela foi colocada dentro daquele saco, ela foi colocada dentro de um buraco. Tinha poucas pessoas ali junto, e essas pessoas estavam meio separadas entre si; só quem tava comigo era uma prima minha, que tava me consolando. Enquanto a minha mãe descia naquele buraco, eu tava em chamada de vídeo com meus familiares de outro estado, inclusive com a minha avó, que viu a filha dela ser colocada em um buraco. E ali eu acho que foi a dor mais alucinante da minha vida.
E o dia que justamente dói mais pra mim é hoje, que é domingo. Porque domingo era dia de cheiro de comida boa, de gente aqui em casa, de uma mesa cheia, que hoje eu não consigo mais encher.
Desde o dia 13 de setembro de 2020, eu não fui mais a mesma pessoa. E aí eu fico me perguntando quando que a morte de alguém deixou de ser realmente uma perda pra nós e virou apenas um número. 700 mil pessoas morreram, e quando eu falo 700 mil, esse número sai fácil da minha boca, mas ele não sai leve.
E só lembrando que, se a gente não chorar pelos outros, quem vai chorar por nós? Bom, por isso, quando você for votar dia 25, não pensa só em você. Pensa em quem tem menos, pensa na minoria, em quem nunca teve oportunidade, quem não tem voz. Vai votar, leva o título, leva quem você ama, leva quem você perdeu, leva sua memória junto.